Artigo - Entendendo como o nadador cria vícios de estilo para elaborar um guia de correção


Entendendo como o nadador cria vícios de estilo para elaborar um guia de correção

Figura. Entendendo como o nadador cria vícios de estilo para elaborar um guia de correção. (1)


Entendendo como o nadador cria vícios de estilo para elaborar um guia de correção

Paulo Franco Rosa Nadar!
Lúcio Franco Rosa Nadar!

Palavras-chave: quatro nados, corretivos, estilo, biomecânica, cinemática

https://n2t.net/ark:/21207/NADAR.v1i164.9

RESUMO

Revisando os trabalhos mais relevantes na área de pesquisa de correção dos nados podemos entender como os erros técnicos dos nadadores se manifestam e nos deparamos com sugestões para corrigi-los. Mas até que ponto se aplicam aos nossos atletas? Nosso objetivo não é o de listar erros específicos e suas correções, mas sim de criar uma rotina de trabalho voltada para identificação de problemas a fim de planejar um guia de operações.

INTRODUÇÃO

Um dos primeiros estudiosos a tentar entender a mecânica dos nados a fim de corrigir os erros dos atletas foi o treinador olímpico norte-americano James E. Counsilman. Além de nadador e técnico diversas vezes campeão ele dedicou boa parte de sua carreira aos estudos e seu livro Science of Swimming, de 1968, ainda é uma importante referência. Entretanto, sabemos que desde aquela época poucos estudos tem sido realizados a fim de levar os atletas da natação a nadar cada vez mais rápido e melhor a partir do mesmo princípio utilizado por Counsilman: corrigindo os erros.

Pesquisas tradicionais em biomecânica da natação forneceram aos treinadores uma riqueza de informações sobre técnicas executadas por atletas habilidosos (Counsilman, 1968, Maglischo, 1982, Schleihauf, 1983; 1986). Todavia, como aplicar estes avançados ensinamentos a nadadores de nível médio? Pesquisa guiada por este questionamento (2) concluiu que não sabemos como os nadadores "médios" se comportam por haver pouca ou nenhuma informação sobre o desempenho de nadadores médios não competitivos.

De fato, vamos encontrar uma grande quantidade de pesquisa com metas pontuais de identificar um ou outro erro e sugerir corretivos, como, por exemplo: técnicas de nados (2-5); técnicas de saídas (6); técnicas de prevenção de lesões (7) e até técnicas para identificar estilos ideais através de tecnologias de monitoramento e avaliação de nadadores (6,8).

UM GUIA PARA CRIAR O GUIA

Se observarmos que nossa literatura especializada em técnicas de natação extrapola os ensinamentos básicos por basear-se em modelos supra dimensionados e que as pesquisas focam em problemas pontuais, se faz necessário estabelecer uma ordem de prioridade para o processo de correção do estilo com base na prevalência de erros no grupo em que cada técnico atua (2), a partir de um planejamento abrangente.

Um estudo (9,10) fundamental sobre planejamento nos forneceu a base para estruturar esse guia, nos explicando que a execução de qualquer modelo técnico requer por parte do atleta uma eficiente inter-relação entre a estrutura cinemática, a estrutura dinâmica e a estrutura cognitiva. A primeira diz respeito ao entendimento das características espaciais e temporais do movimento, a segunda se relaciona à aplicação das forças e a terceira pressupõe a capacidade cognitiva necessária para poder executar o movimento. Os próximos tópicos discorrem sobre cada uma delas.

ESTRUTURA CINEMÁTICA

Os problemas de compreensão cinemática do estilo, englobam questões relativas a: posicionamento, coordenação, sincronia, movimentos de braços, mãos e pés e recuperação. Com relação aos erros de sincronia e coordenação a atenção deve ser maior, pois a forma como o nadador executa a respiração pode distorcer a imagem do erro técnico.

Os erros de posição corporal e sincronia incrementam as forças de resistência e dificultam a aplicação das forças de propulsão, prejudicando a economia de energia e eficácia do estilo, influenciando, enfim, a estrutura dinâmica do nado.

ESTRUTURA DINÂNICA

Os erros de dinâmica dizem respeito a ineficaz aplicação das forças e incompreensão das leis físicas da natação.

As leis hidrodinâmicas, dizem respeito a física dos corpos em meio líquido. A lei da alavanca ensina que a ação dos braços será proporcional ao tamanho deles. A lei das resistências demonstra que a posição da cabeça do nadador cria uma resistência frontal, assim como os movimentos do atleta criam ondas e redemoinhos. A lei da inércia ensina a aproveitar o deslize do corpo com economia de movimento e força. A lei de Newton enuncia: "a toda ação corresponde uma reação em sentido contrário". A lei de Bernoulli: demonstra que uma maior propulsão na água é obtida pela movimentação de grande quantidade de água a curta distância. E a lei fisiológica do cubo alerta-nos de que quando dobramos a velocidade do braço que nos impulsiona, o desgaste de energia aumenta oito vezes.

ESTRUTURA COGNITIVA

As características psicológicas do nadador também podem determinar erros técnicos. Os professores Solé e Joven (10) listam uma série de problemas associados a esta estrutura: a) insuficiente sensibilidade de percepção cinestésica; b) incorreta representação mental da técnica e c) devido à possíveis lesões, o nadador tem medo e alterar a estrutura do movimento.

CORREÇÃO ATIVA E PASSIVA

Após a fase de identificação do do problema e suas possíveis causas e origens, serão propostas atividades visando a correção de forma ativa e passiva.

FASE PASSIVA DA CORREÇÃO

Nesta etapa o nadador não executará o exercício na piscina, mas sim, observará vídeos e fotos que mostram o movimento correto e se possível assistirá a si próprio nadando. Explanações verbais do técnico também ajudam o atleta a compreender as causas do erro e quais suas consequências.

Estando o nadador consciente de suas falhas, devem ser aplicados os exercícios específicos de assimilação técnica, destinados à correção mecânica do defeito.

CORREÇÃO ATIVA

Agora sim vamos para a água. Nesta fase o nadador deverá buscar o aperfeiçoamento técnico a partir da automação do modelo correto. A base são as repetições ativas da técnica. O movimento deve ser repetido múltiplas vezes em condições padronizadas ou modificadas, aumentando ou diminuindo a dificuldade. Aqui se incluem exercícios para competições e também os específicos. Posteriormente deve ser estruturado um programa de manutenção para evitar o reaparecimento dos erros.

A TEMPORADA

Dentro da temporada de treinamento deverá ser reservado um tempo no planejamento para as correções, desde a fase preparatória, passando pela específica até a fase competitiva.

Na fase preparatória devemos identificar os erros. Um método de correção passiva começa a ser utilizado aqui. Entretanto, na piscina já é hora de dar exercícios de contraste (exagerar o erro, alternar, ação contrária). Nesta fase inicial deve-se dar maior atenção às correções. Outros exercícios: assimilação técnica, variar condições, incrementar a dificuldade.

No período específico a atenção deve-se voltar para a manutenção e a ênfase maior será nas correções ativas e não passivas.

No período competitivo espera-se que os erros já tenham sido superados, entretanto é necessário atentar para a correta execução mecânica em condições de maior velocidade do nado. Preste atenção: muitas vezes os erros reaparecem nesta fase.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As orientações deste artigo foram baseadas essencialmente no planejamento para um guia de correção dividido fundamentalmente em três grandes tópicos: 1) cinemática; 2) dinâmica e 3) cognição. A partir daí, cada profissional deverá avaliar criteriosamente seus nadadores, utilizando-se de seus recursos disponíveis (observação, filmagem, sensores) a fim de elaborar seu próprio guia de correção.

Atualmente um dos recursos mais avançados para análise técnica dos nados é o sistema de sensores:

'As Inertial measurement units (IMU) são comprovadamente ferramentas eficientes para análise de natação, superando os limites da aplicação de sistemas baseados em vídeo em ambientes aquáticos.'(8)

No entanto, os treinadores ainda acreditam na falta de um sistema de análise confiável e fácil de usar para natação.

Outro sistema de análise e correção em uso nas últimas décadas é o chamado old way/new way que não acredita na tradicional tentativa de superar um erro com base nas excessivas repetições de um acerto. Esta metodologia (8) contrasta os padrões de movimento errôneos e corretos seguindo o protocolo individualizado preparado antes de uma intervenção, chamado de tentativa de aprendizado.

Mas, estes são assuntos para futuros estudos e que extrapolam o objetivo deste artigo.

REFERÊNCIAS

(1) Freepik [Internet]. [place unknown]; 2022. Coach teaching kid in indoor swimming pool how to swim and dive. swimming lesson, kids development.: Water photo created by prostooleh; [cited 2022 Jan 13]; Available from: https://www.freepik.com/photos/water

(2) Sierra N, editor. ESTABLISHING ERRORS IN STROKE TECHNIQUE OF THE FRONT CRAWL; 1991 [Internet]. New York: Hunter College; 1991 [cited 2022 Jan 13]. Available from: https://ojs.ub.uni-konstanz.de/cpa/article/view/2654/2490

(3) Mandzák P, Mandzáková M. CORRECTION OF ERRORS AND INCREASING THE FRONT CRAWL SWIMMING TECHNIQUE EFFICIENCY OF STUDENTS OF PHYSICAL EDUCATION AND SPORT. Poznan: Sportu i Edukacji w Poznaniu Polska; 2014. 88 p.

(4) Barbosa T M, Mandzáková M, Costa M J, Marinho D A, Queirós T M, Costa A M, et al. MANUAL DE REFERÊNCIA FPN PARA O ENSINO E APERFEIÇOAMENTO TÉCNICO EM NATAÇÃO [Internet]. Oeiras: Federação Portuguesa de Natação; 2014 [cited 2022 Jan 13]. 188 p. ISBN: 978-989-95747-3-1. Available from: https://fpnatacao.pt/uploads/Manual_Completo_V10.pdf

(5) Nakamura O. NATAÇÃO 4 ESTILO DEFEITOS - CORREÇÕES. São Paulo: Ícone Editora; 1997. 52 p. ISBN: 85-274-0454-0.

(6) Hanin Y, Malvela M, Hanina M. Rapid correction of start technique in an Olympic-level swimmer: A case study using old way/new way. The Journal of Swimming Research. 2004 Fall;16:14-17.

(7) Virag B, Hibberd E E, Oyama S, Padua D A, Myers J B. Prevalence of Freestyle Biomechanical Errors in Elite Competitive Swimmers. Sports Health: A Multidisciplinary Approach [Internet]. 2014 Mar 20 [cited 2022 Jan 13];6(3):218-224. DOI 10.1177/1941738114527056. Available from: https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1941738114527056

(8) Rad M H, Gremeaux V, Dadashi F, Aminian K. A Novel Macro-Micro Approach for Swimming Analysis in Main Swimming Techniques Using IMU Sensors. Front Bioeng Biotechnol [Internet]. 2021 Jan 14 [cited 2022 Jan 13]; DOI 10.3389/fbioe.2020.597738. Available from: https://referenciabibliografica.net/a/en/ref/vancouver

(9) NADAR! REVISTA BRASILEIRA DOS ESPORTES AQUÁTICOS. Guia de correção dos erros do nadador. NADAR! REVISTA BRASILEIRA DOS ESPORTES AQUÁTICOS. 1997;:22-23.

(10) Solé J, Joven A. Planification of technical training in competitive swimming. Apunts. Educación Física y Deportes, 47, 1997;: 88-95.


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